
...um tremendo mal estar...
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Nós já estávamos juntos havia quase três anos. Não vivíamos juntos, ainda, mas nosso contato era diário e passávamos muitas noites na casa um do outro. Ele tinha acabado uma relação pouco antes de iniciarmos a nossa. Depois eu soube que no começo, fôramos um trio (!) e apenas depois de dois ou três meses é que ele, de fato, decidiu definir sua situação com a antiga paixão.
O que me deixava desconfortável era a situação dele e da antiga paixão trabalharem juntos, no mesmo departamento de ma faculdade. O fato de eles continuarem amigos não me afetava, até porque eu achava comum este tipo de comportamento, visto que alguns de meus antigos namorados também se tornaram amigos, ou colegas. Entretanto, o trabalho diário e os contatos por muito e muito tempo deixavam-me desconfortável mesmo. Não eram ciúmes, era algo mais como se meu sentimento de posse sobre o tempo dele fosse profundamente abalado, ou seja, o tempo livre dele não era, nem poderia ser tão meu, pois ele o dedicava ao amigo… A recíproca não era verdadeira, pois eu sempre estava ali, disponível, dedicado a ele e a nossa relação.
Em alguns casos conversei com ele sobre isso e recebi os típicos comentários: “Arthur, está tudo acabado entre ele e eu… Você é meu companheiro agora… Você está apenas com ciúmes… Pare de pensar nisso!”. Tantas foram minhas tentativas que eu mesmo comecei a me achar um chato! E pensava se, de fato, não estava “procurando cabelo em ovo”. Parei de pensar sobre o assunto, mas o desconforto me surgia de quando em quando. Com o tempo, eles pararam de se ver com tanta frequência e eu me convenci que realmente exagerara no princípio.
Passou-se mais um tempo e quase chegando ao nosso terceiro ano juntos, ele me comentou que em uma viagem de treinamento, o amigo iria com ele. Senti o fatídico desconforto outra vez, mas considerando tanta chatice que eu já havia demonstrado, não comentei nada.
Foram… No segundo dia da viagem ele me liga pela manhã cedo, despertando-me. Pensei em algo sério, algum problema de saúde, acidente, etc. Mas era apenas para dizer que sentia saudades. Achei despropositado, mas assumi que também era estranho passar dois dias sem vê-lo e estava saudoso, também.
Dois dias depois, de volta da viagem, marcamos nosso reencontro em um jantar em minha casa. Ele chegou pontualmente às oito horas e minha saudade, meu desejo o viu como o homem mais perfeito do mundo. Abracei-o, beijei-o e durante o beijo, senti sua frieza. Foi um balde de água fria e aquela tal sensação de desconforto de anos atrás se instaurou. Afastei-me e perguntei: “o que houve?”. Ele contou…
Falou que na primeira noite, acordou com um beijo do amigo, ao seu lado na cama. Disse que a princípio não entendeu e quando percebeu o que acontecia, parou, acendeu as luzes e conversaram. Disse-me que conversaram muito e deixou claro para o amigo que aquilo havia acabado. Assumiu para mim que o amigo lhe falou que ainda não tinha aceito o fato do final de sua relação.
No momento, não pensei nada. Não senti dor, não senti ciúmes. Senti um tremendo mal estar. Náuseas, ânsia de vômito forte. Corri para o banheiro e ele pensou que eu ia chorar. Ficou chocado quando me viu vomitando. Tentou ajudar-me e não lhe permiti que me tocasse. Sua pele me queimava, aumentava o mal estar. Lavei o rosto, escovei os dentes, respirei fundo, respirei fundo, respirei… Ele estava chorando ao meu lado. Eu continuava enjoado…
Fui para sala, sentei-me em minha cadeira preferida. Continuei respirando, tentando encontrar um ritmo. Ele estava lá, ao lado da porta, chorando.
Conversamos… Não sentia dor, apenas nojo. Com o tempo, o nojo foi sendo substituído por pena, atenção, compreensão. Entendi o fato e preferi não pensar mais naquilo. Envenenava-me pensando. Ele percebeu o que eu queria dizer desde o princípio… Eu nunca desconfiara dele. Nossa relação era forte o suficiente para percebermos a importância de sermos verdadeiros um com o outro. Meu problema era com o outro. Ele não compartilhava de nossa cumplicidade, de nossa confiança, de nosso sentimento. Ele poderia afetar-nos, por conhecer as fraquezas de meu companheiro.
Nossa relação ficou abalada. Mas reconstruímos a confiança e ainda estivemos juntos (inclusive dividindo a mesma casa) por mais quatro anos. Não senti ciúmes naquele momento. Senti um profundo nojo, não dele, mas do corpo do outro próximo ao dele, da saliva do outro, mesclada com a dele, do cheiro do outro, profanando seu corpo. Só o tempo me permitiu , de fato, compreender e esquecer.