Meus amigos têm comentado muito acerca do casal de militares gay. Em linhas gerais os solteiros falam da bobagem que eles fizeram expondo a relação. Alguns casados têm outra opinião, lembrando que é importante assumir-se enquanto casal. Eu fico pensando nas delícias e dores da vida a dois em uma relação afetiva
Tive vários exemplos de relações afetivas de longo termo. Fossem heterossexuais ou homossexuais, não importa. Avós casados por mais de 65 anos. Pai e mãe casados por quase 40 anos… Entre as homo, tenho amigos em relações estáveis por 5, 9, 12 anos. Para mim, acasalar-se sempre foi algo esperado, comum, normal.
Lembro, entretanto de uma situação de minha adolescência que me marcou muito e até hoje me emociona. Eu estudava em um colégio relativamente perto de casa. Eram cerca de 20 minutos andando e eu sempre ia a pé.
Até hoje tenho o hábito de observar o mundo: as ruas, pessoas, casas… Sempre que ia para o colégio tentava caminhos diferentes, buscando ver novas pessoas, novos lugares, outras visões.
Em um de meus caminhos havia uma casa em especial. Era uma casa simples, com muro branco baixo, um belo e pequeno jardim, onde não havia flores, apenas verde e um jasmineiro, que emanava um perfume forte e agradável. Protegida por uma grade estava uma pequena varanda que, pela manhã, quando eu passava, estava sempre banhada pelo sol. Apesar do ambiente agradável de uma singela casa, cercada de verde, em uma rua calma, o que me chamava atenção ali era outra coisa: seus dois habitantes, sempre presentes.
Todo dia eu passava por lá. Ele sentado em uma cadeira de balanço, tinha sempre um rádio no ouvido e comentava as notícias. Ela, sentada a seu lado, ouvia seus comentários, conversava e sempre fazia algo com as mãos. Como eu nunca entendi a diferença entre tricô, crochê, bordados, etc., não conseguia identificar sua arte.
Meu caminho diário levou-me a apreciar aquela casa e os dois velhinhos. Acostumei-me àquela cena diária que me trazia paz, conforto e a esperança de um futuro tranqüilo, ao lado de alguém com quem pudesse compartilhar o que a vida me houvesse regalado.
Foi depois das férias de julho que voltei ao meu percurso habitual. Fiquei surpreso ao passar em frente a casa e ver a varanda vazia. Nenhum de meus dois velhinhos estava ali. Meu estranhamento levou-me a uma série de conjecturas, entre elas a de que, certamente, estariam de férias, tal como eu havia estado até a pouco.
Alguns dias depois, passando por lá, contemplei a cena que nunca saiu de minha cabeça. A cadeira de balanço estava vazia. Ela, sentada ao lado, vestida de preto, com o rádio no colo, fitava o infinito.




É realmente emocionante a sua história e me fez lembrar de momentos que presenciei que passam desapercebidos pela maioria porque vivemos num mundo tão corrido e rápido que não temos tempo para apreciar essas pequenas coisas que podem mudar a vida de uma pessoa.
Por: E. Cohen em 8 Junho, 2008
às 6:56
Considero minha vida como feita de momentos… Uma série deles vai dando sentido ao que vivo. Quando me lembro de algo, lembro de imagens, sons, cheiros, músicas, toques, pensamentos, sensações, dentro um momento específico. Sempre, estes momentos, estão imersos em emoção.
Por: artcasez em 8 Junho, 2008
às 14:17
Lindo! Estou seriamente em dúvida se passo a lhe chamar de Arthur Poulain (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) pela sensibilidade e apreço aos mínimos prazeres da vida, assim como a protagonista do filme, ou passo a lhe chamar de Arthur Iluminado (Uma Vida Iluminada) pela coleção de sentimentos e momentos, se aproximando assim do protagonista Jonathan que com saquinhos registra passagens de sua vida.
Abraço,
Sonhador
Por: lereveur85 em 22 Maio, 2009
às 21:57
Ah, Sonhador, obrigado por sua atenção.
Este momento eu levo sempre comigo. Lembro dos dois velhinhos e do choque terrível quando a vi sozinha. Ainda hoje me emociono com a cena e minha surpresa.
Lembro que naquela época, era meu último ano do ensino médio. Associei aquele “fim” com o fim de meus anos de colégio. A separação, com a distância que teria de meus amigos. Aquela solidão, com que possivelmente eu passaria… Nem tudo foi como imaginei, mas não nego: ainda hoje, vez em quando, passo por lá. A casa ainda existe. Não há mais jasmineiro e nunca mais vi alguém na varanda.
Abraço gostoso,
Arthur.
Por: Arthur em 28 Maio, 2009
às 21:18