Publicado por: Arthur | 26 Setembro, 2008

A posse…

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Sim... ...meu sargento...

 Sargento Garcia, de Caio Fernando Abreu, foi o primeiro conto gay que li. O marcante foi ver escrito, ler, algo que me tocava tão intimamente. No momento, apenas fiquei surpreso, excitado e enojado. Hoje, percebo que aquele conto narra algo muito mais potente. Para mim, “Sargento Garcia” demonstra o momento em que alguém (Hermes) toma posse de sua própria história

 .
No princípio:

Não me fira, pensei com força, tenho dezessete anos, quase dezoito, gosto de desenhar, meu quarto tem um Anjo da Guarda com a moldura quebrada, a janela dá para um jasmineiro, no verão eu fico tonto, meu sargento, me dá assim como um nojo doce, a noite inteira, todas as noites, todo o verão, vezenquando saio nu na janela com uma coisa que não entendo direito acontecendo pelas minhas veias, depois abro As mil e uma noites e tento ler, meu sargento, sois um bom dervixe, habituado a uma vida tranqüila, distante dos cuidados do mundo, na manhã seguinte minha mãe diz sempre que tenho olheiras, e bate na porta quando vou ao banheiro e repete repete que aquele disco da Nara Leão é muito chato, que eu devia parar de desenhar tanto, porque já tenho dezessete anos, quase dezoito, e nenhuma vergonha na cara, meu sargento, nenhum amigo, só esta tontura seca de estar começando a viver, um monte de coisas que eu não entendo, todas as manhãs, meu sargento, para todo o sempre, amém.

Ao final:

Subi correndo no primeiro bonde, sem esperar que parasse, sem saber para onde ia. Meu caminho, pensei confuso, meu caminho não cabe nos trilhos de um bonde. Pedi passagem, sentei, estiquei as pernas. Porque ninguém esquece uma mulher como Isadora, repeti sem entender, debruçado na janela aberta, olhando as casas e os verdes do Bonfim. Eu não o conhecia. Eu nunca o tinha visto em toda a minha vida. Uma vez desperta não voltará a dormir. O bonde guinchou na curva. Amanhã, decidi, amanhã sem falta começo a fumar

Sargento Garcia – Curta metragem


Respostas

  1. [...] como a história de Hermes, apossando-se de sua vida em “Sargento Garcia”, lembro quando tomei posse de meu corpo. Nada tão forte, mas fundamental em minha própria [...]

  2. Adorei Sargento Garcia. Mexeu comigo desde a primeira vez que o li em “Morangos Mofados”. Foi um conto forte, pesado mas que me deu uma visão de liberdade. Sim, você está certo. É o momento em que um garoto se torna homem.


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