
Receosos da entrega...
Percebo uma situação clara na minha “geração dos 30 – quase 40”. Acho que passamos por muitas coisas, nem sempre agradáveis e vivemos um período muito opressor.
Por um lado pela saída do armário, nem sempre fácil. Por outro lado, pelo boom da AIDS, justamente na fase em que descobríamos o sexo. Acho que, ainda hoje, homens com quarenta anos, trinta e tantos (meu caso) têm um grande receio de envolvimento. Vivemos este tempo pesado e acabamos em relações, muitas vezes, complicadas. Isso nos deixou com marcas… Medo do outro.
Muitos dos que conheço, casaram, tiveram filhos e hoje, com os filhos adolescentes, resolveram assumir que sua felicidade seria ao lado de outro homem.
Acho que por causa dessas angústias, muitos de nós somos amargos, assustados e receosos de confiar, receosos da entrega.
Por outro lado, o pessoal dos 20 anos iniciou sua vida adulta em um momento mais favorável. Hoje é mais fácil sair do armário (pelo menos mais do que há 15, 20 anos atrás). Hoje temos modelos positivos de homossexuais e de casais de homossexuais. Acho que por isso mesmo, esta rapaziada mais jovem chega com mais coragem na vida.
Vejo pelos meus alunos: eles são confiantes, orgulhosos do que são e jamais, jamais mesmo, abaixam a cabeça ou sentem-se diminuídos pela sua orientação sexual. São bonitos e não têm medo de mostrar afeto pelos amigos e/ou namorados. É lindo vê-los e isso me causa uma inveja incrível! Queria que fosse este o meu tempo. Como aquela naturalidade expressa não é estranhada pelos que estão ao nosso redor.
Isso não significa que não percebemos em sala comentários maldosos, preconceituosos. Mas o melhor de tudo é que o próprio grupo se encarrega de finalizar o assunto e cortar as “crises de preconceito”. Imagino tempos melhores… Bom que eles venham: sejam muito bem vindos!




O QUE ME DEIXA CHATEADO ÀS VEZES É VER QUE HÁ PESSOAS EM SEUS 20 E POUCOS ANOS QUE, APESAR DE MUDANÇAS OCORRIDAS, ACABAM SEGUINDO UM MODELO ULTRAPASSADO E “ARMARISTA”. CADA UM TEM SUA REALIDADE, MAS HÁ OS QUE ACHAM LEGAL ISSO. TIVE MINHAS DIFICULDADES QUANDO MAIS JOVEM, COM CERTEZA, ISSO AGORA SÃO LEMBRANÇAS. MAS NÃO CONSIGO ACHAR QUE “NO MEU TEMPO” AS COISAS ERAM ASSIM OU ASSADO, ME SINTO JOVEM, POR FORA E POR DENTRO, MUITA COISA PRA FAZER E VIVER, AGORA É “MEU TEMPO”. É O QUE FALEI SOBRE ESPERANÇA, ELA NÃO DIMINUIU. PODE SER QUE ESTEJA DIFERENTE, MAS EXISTE FORTE E O MEDO DE ME ENVOLVER SEMPRE EXISTIU, MAS A DISPOSIÇÃO DE SUPLANTÁ-LO TAMBÉM.
Sim, Marcus. Ainda hoje vemos o povo no armário por puro pavor a assumir ser o que é. Vemos isso no próprio preconceito enraizado que é expresso por nós mesmos. Quantos descartam afeminados, pintosos, etc.? “Pode ser gay, mas tem que ter jeito de macho”, é o que ouvimos por ai.
Marcus, quando digo que tenho inveja do povo de 20 hoje, não digo que me sinto velho e inadequado por isso (sinto-me com 40, sim – um tempo onde aprendi que fazer algumas coisas já é quase inadequado). O que, de fato, quero dizer com minha inveja, é que adoraria que, quando eu tive 20, o mundo fosse um pouco mais tolerante. Aceitasse as diferenças com um pouco mais de respeito. Isso teria facilitado minha descoberta de mim mesmo. Com menos dúvidas, com menos dor.
Sim, nosso tempo é agora. Sempre será agora. E é nessa perspectiva que imagino qualquer tipo de relação, qualquer tipo de envolvimento. Duas pessoas, em seus momentos presentes, trazendo uma bagagem e predispostas a crer em um futuro em comum.
Bom “conversar” com você!
Abração