Publicado por: Arthur | 24 Dezembro, 2008

Porque eu acredito em Papai Noel

Papai Noel

Papai Noel

Eu tinha cinco anos e Natal para mim, significava ir para a casa dos meus avós, receber presentes, comer chocolates e brincar com todas as outras crianças da família. Natal era bom, pois estava de férias, podia dormir até tarde e sempre ganhava presentes de todos os tios e primos, além da liberação de comer presunto caramelado, alfajores e os típicos torrones que mandavam da Espanha para minha avó.

Fruto de uma família de profunda tradição cristã (eu costumava brincar com meu pai dizendo que a família tinha imigrado e trazido alguns costumes da inquisição espanhola), Natal era a época do advento, do nascimento do Cristo e data suprema da confraternização em família. Do outro lado, a tradição francesa do pai de minha mãe, prezava por um grande almoço, no dia 25, com presentes e pratos e mais pratos. Esse era o verdadeiro Natal.

Era interessante ter os dois costumes e o melhor de tudo era que, felizmente, não havia conflitos de interesses: os hispano-brasileiros do lado paterno faziam da noite do dia 24 uma grande festa! O problema era quando minha avó só queria liberar os presentes no dia de Reis, 06 de janeiro. Já os franco-indígenas da família da mãe, não nos dispensavam no almoço do dia 25. Meus avós por parte de mãe faleceram cedo. Não os conheci. Mas os tios e tias de minha mãe fizeram parte de um período de minha infância.

Assim, naquele ano, aos cinco anos de idade, fui com meus pais para um almoço na casa de um dos tios de minha mãe: tio Louis. Eu gostava daquele velhinho simpático, sempre sorridente e que morava em uma casa imensa, com muitas plantas, gatos, cachorros, tartarugas. Tio Louis era viúvo e sua filha morava na França. Assim, aquele senhor vivia sozinho com suas plantas e bichos em um grande casarão, relativamente próximo à casa de meus pais.

Lembro que estava entusiasmadíssimo com os presentes ganhos na noite anterior. Com certeza eu preferia estar em casa, estreando todos os brinquedos que em um almoço… Mas fui… Quem sabe não havia sobremesas? Bom, não lembro se havia, na verdade pouco me lembro do almoço. Lembro apenas do depois.

Quando terminamos, tio Louis sugeriu que fizéssemos a “siesta”. Meus pais ficaram em um quarto e eu fui “hospedado” no quarto vizinho. Não havia cama naquele aposento e me foi oferecida uma rede. O quarto abria uma porta para uma ampla varanda e eu podia ver o jardim, plantas e flores, muitas flores. Adormeci sem perceber. Quando acordei pus os pés para fora da rede e, ainda olhando para o jardim e ouvindo as vozes de meus pais e tio Louis ao longe, tentei alcançar com as pontas dos pés o chão. Meus dedos tocaram em um objeto e não no chão. Pus os pés para dentro da rede e olhei para o chão. Ali havia um pacote. Era um embrulho grande, coberto com um papel de presente bonito, vermelho e branco com uma imensa fita dourada.

Árvore de Natal

Natal

Curioso, desci da rede, peguei aquele embrulho e procurei meus pais e tio Louis. Eles estavam sentados à mesa da cozinha, tomando chá, biscoitos e conversando. Mostrei o embrulho e perguntei o que era. Tio Louis disse que era um presente para mim. Olhei interrogativamente para meus pais. Com a autorização do olhar deles, abri o pacote. Era um jogo de armar. Muito interessante, com vários bonequinhos e peças para formar casas, praças, parques, etc… Adorei o jogo (eu o mantive por muitos anos) e agradeci a tio Louis pelo presente. E minha surpresa veio a partir daí.

Tio Louis disse que era um presente do Papai Noel. Papai Noel? Para mim, Papai Noel era um desenho nas propagandas da TV, lojas, revistas… Eu pouco sabia de Papai Noel. Vendo minha cara de completa surpresa, tio Louis perguntou-me o que eu sabia do Papai Noel. Respondi que nada… Ele me explicou toda a história: que Papai Noel morava no Pólo Norte, e na noite de natal viajava em seu trenó, puxando por renas, distribuindo os presentes para aquelas crianças que haviam sido bem comportadas durante todo o ano.

Mesmo imaginando que o presente era de tio Louis, aquela figura me encantou. Especialmente pelo fato de sua “doação”. Papai Noel não ganhava nada em troca dos presentes que dava, quem sabe, recebia apenas a alegria de crianças, como eu, que estava radiante com meu brinquedo. Desde esse Natal, passados há mais de trinta anos, que me encantei com Papai Noel.

Com o tempo descobri a história de Rodolfo, a rena do nariz vermelho (nem sei se faz parte da lenda original…), a versão de São Nicolau e o simbolismo de uma figura mítica que distribui generosidade, alegria, felicidade, sonho, magia… Até hoje, a época do Natal me comove, me encontra com uma sensibilidade extrema. Não posso ver Papais Noéis que sinto uma tremenda vontade de chorar.

Passei natais lindos, diferentes. Um Natal branco, no Pays Cathare, com todo o chocolate quente que tinha direito. Natais de música, ouvindo concertos barrocos em igrejas na Espanha. Um Natal tropical, participando de um coral sacro em Fortaleza. Um Natal de luz, vendo as luzes e seu espetáculo em Paris. Muitos Natais calorosos, com uma família louca e divertida (a minha!). Mas sempre, sempre, me resta um pouco da lembrança daquele almoço, onde fui apresentado a Papai Noel.

Cheguei aos seis anos, aos sete, aos oito… Sempre com o coração transbordando no Natal. Meus coleguinhas inúmeras vezes me falaram que “Papai Noel não existe”! Uma coleguinha mais doce me explicou que Papai Noel era o “nosso papai”, que nos dava os presentes de Natal. Acho que por ter conhecido Papai Noel na época em que a maioria das crianças toma consciência de sua inexistência, sempre senti uma profunda tendência a crer em algo mágico na época do Natal.

Rodolfo!

Rodolfo!

Até hoje tenho plena consciência que o espírito de Natal existe. O espírito que nos lembra o milagre do nascimento do Cristo e nos aflora a generosidade, a doação de um Papai Noel.

P.S.: Ainda hoje visito o site do NORAD para saber onde anda Papai Noel em sua entrega de presentes pelo mundo. Ah… …tenho uma rena de pelúcia com o nariz vermelho (claro que a chamo de Rodolfo)…


Respostas

  1. Quando eu era criança eu acreditei um Papai Noel, mas na adolescência deixei de acreditar no bom velhinho até o primeiro ano de faculdade quando a turma combinou de passar um dia em um orfanato na época de natal, brincar com as crianças e levar presentes. Não me vesti de Papai Noel, cada um levou um chapéu vermelho. Na hora de distribuir os presentes foi maravilhoso ver os olhos daquelas crianças brilhando e o sorriso estampado nos rostos. Descobri que Papai Noel realmente existe dentro de cada um de nós.

    Ah, feliz Natal (um pouquinho atrasado…)

  2. Oi Cohen! É disso que falo: dessa magia que nos dá a possibilidade de fazer um outro feliz. O brilho no olhar de suas crianças é a verdadeira existência de um Papai Noel.

    Abraço e Feliz Natal!


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