
A tentação
Com a cidade cada vez mais intransitável, já faz algum tempo que comecei a usar caminhos alternativos, ruas de bairro, pequenas vias que, até algum tempo, eram utilizadas apenas pelos moradores locais.
Esta semana, outra vez fugindo do trânsito e tentado evitar mais atrasos para uma aula, cai em uma rua, antes trafegável, agora quase que completamente parada. Uma rua tipicamente residencial, discreta, alternativa a duas grandes avenidas. Uma rua sem semáforos onde ainda havia carros parados nas portas de casa de muros altos e onde o trânsito de pedestres era pequeno.
Pois parado nesta rua, em pleno congestionamento das 13:00 horas, eu tive uma estranha sensação de déjà vu… Olhei para uma casa, uma das poucas com muro baixo e grades e foi aí que eu lembrei.
Lembrei de uma situação ocorrida há quase vinte anos. Era uma noite de sábado e dois amigos (um amigo e uma amiga) resolveram me levar para um bar gay. Fui com eles, um pouco assustado. Não era a primeira vez que eu ia a um ambiente assim, mas era a primeira vez que ia com amigos hétero. A casa era aquela: rua tranqüila, luzes suaves, muitos carros parados nas portas e um corredor lateral que ia do jardim ao quintal.
Entramos, seguimos pelo corredor iluminado por tochas (bastante aconchegante), gramado e com muitas flores. No quintal estava o bar. Várias mesas de quatro lugares estavam dispostas no gramado. Um balcão, em um dos cantos era servido por uma moça, elegante, loira, totalmente vestida de branco, incluindo uma boina.
Sentamos em uma mesa próxima à entrada. Meu casal de amigos estava curioso e assustado pela quantidade de pessoas “acima de qualquer suspeita”. Eles esperavam gays caricatos, drags, caminhoneiras e encontrávamos ali vários jovens, exatamente como nós… Pedimos bebidas (eu no eterno refrigerante) e eles dividiam uma cerveja.
Conversavam nervosos e me pus a observar o lugar. Bom gosto, sem dúvida. A música era agradável (MPB), o gramado bem cuidado, as pessoas comuns, mas interessantes. Continuei minha inspeção até chegar a uma mesa próxima ao bar. Nela, ao contrário das outras, onde havia casais ou pequenos grupos, sentava-se um rapaz sozinho. Ele estava de costas ao salão, olhando para um muro. De onde eu estava podia percebê-lo completamente. Era muito branco, cabelos negros e sobrancelhas muito grossas. Seus olhos eram escuros e não pude perceber a cor. Tinha a boca pequena e um nariz reto. Fumava… Usava um jeans comum, com tênis estilo “All Star”, preto e vestia uma camisa branca, muito longa, que lhe pareceria um vestido se fosse usado sozinho.
Ele parecia perdido naquele muro. Não demonstrava nenhum interesse no salão. Sobre a mesa uma garrafa de cerveja e um copo. Eu o observava sem pudor. Estava encantado com a beleza daquela cena. Até então eu nunca havia me apaixonado por um homem. Já tinha namorado, e curtido um amor platônico por um professor, mas nunca havia sentido tamanha atração por um homem. Seus olhos eram de uma tristeza tão profunda que me comoviam. Não conseguia desviar meu olhar.
Minha amiga tocou na minha mão, e disse: “Arthur, eu o conheço. Ele é artista plástico, pinta quadros. Vem comigo ao banheiro, na volta te apresento a ele”. E assim fizemos. Saímos da mesa deixando nosso amigo apavorado de ser abordado por alguém. Fomos ao banheiro e na volta passamos pela mesa do jovem. Ela começou a conversar animadamente com ele. Sentamos ali e continuamos a conversa sobre amenidades e amigos em comum. Conhecia muitas pessoas do mundo das artes, naquela época. Era fácil conversar com ele. Um dado momento, minha amiga levantou e deixou-nos conversando sozinhos. Ficamos assim a noite toda. Conversamos sobre tudo: amigos, estudo, trabalhos, arte, fofocas, televisão, cinema, literatura, amores, vida. Em pouco tempo conhecíamos um pouco do outro.
E continuamos ali, conversando, encantados com nossas histórias. Ele foi meu primeiro amor. Estivemos juntos por quase três anos, nos quais nos víamos todos os dias. Conversávamos o tempo todo. Compartilhávamos os mesmos amigos. Íamos para os mesmos lugares e ouvíamos as mesmas músicas. Durante todo este tempo nunca trocamos um beijo. Apenas abraços “fraternais” e longos apertos de mão. Nunca consegui entender aquilo e como me machucava ter o homem que amava ao meu lado e nunca poder beijá-lo, amá-lo! Nossa relação acabou por minha causa. Não pude continuar queimando de desejo e resolvi afastar-me. Ele aceitou o fato. Sofri muito, pela primeira vez sentia como se meu peito fosse partido…
O tempo passou. Terminei a faculdade, tive namorados, um deles quase marido. Terminei o mestrado, “casei”, mudei de pais. Voltei ao Brasil e algum tempo depois, conversando com aquela antiga amiga do bar, descobri que ele, meu primeiro amor havia morrido. Ela me explicou que ele falecera já havia algum tempo. Era HIV positivo e mantinha a doença sob controle há muitos anos.
Sabendo disso, entendi tudo. Entendi porque ele jamais me aceitou como amante. Entendo quantas vezes ele disse “Não Arthur, isso pode ser perigoso”. E eu que sempre pensava que ele tinha medo de se machucar. Compreendi o porquê de seus olhos tristes quando nos abraçávamos e sentíamos nossas ereções no corpo um do outro. Como não me permitia beijá-lo e dizia que não conseguia parar. Mas depois de saber isso, compreendi o que me disse quando nos separamos. Falou que me compreendia, mas ia ser muito difícil estar sem mim, apesar de tudo me amava e para proteger-me, me deixava ir…
Fiquei mal por um tempo. Compreendi suas decisões. Mas nunca compreendi porque nunca me contou.
Aquela casa, perdida numa rua tranqüila, calma, me trouxe muitas recordações.




Um texto lindo… abracos.
Por: Roque Santeiro em 30 Março, 2009
às 3:55
Cara que loucura! Pena que ele não te falou nada. Tu terias aceitado ele mesmo com o vírus? Olha, eu gostei do teu desabafo. Tu te jogas mesmo no texto. Parabéns.
Raoul
Por: Raoul em 30 Março, 2009
às 17:27
Olá Roque!
Bom saber de você por aqui. Obrigadão!
Arthur
Por: Arthur em 31 Março, 2009
às 21:15
Oi Raoul,
Sim, minha maior dor com relação a toda esta situação é ele não ter me falado nada. É o fato dele não ter me permitido decidir o que fazer junto com ele. Hoje, tenho plena segurança que o aceitaria sem o menor problema. Viveria com ele sem dificuldades. Naquela época, eu era muito jovem, sem experiência. Mesmo assim, creio que não teria problemas em aceitá-lo.
Continue por aqui. Bom compartilhar isso com vocês.
Abraço,
Arthur
Por: Arthur em 31 Março, 2009
às 21:23
Arthur,
É uma linda história de amor, obrigado por compartilha-la. Amar em silêncio, em nome de um fator desconhecido, é triste, machuca. Ele não te contou por conta da realidade que existia no Brasil, se hoje o preconceito é grande, há 20 anos era bem maior.
Por: Marcos Freitas em 1 Abril, 2009
às 7:22
Lindo, lindo mesmo.
Por: gayeok em 2 Abril, 2009
às 13:45
Oi,
Bem vinda. Volte sempre.
Arthur
Por: Arthur em 2 Abril, 2009
às 22:21
Oi Marcos,
Acho que penso um pouco como você. O pré-conceito, há vinte anos, era muito forte. Imagino que ele deveria sofrer muito com tudo aquilo. Mas eu creio que se ele tivesse me contado, podia ser um peso que suportaríamos juntos.
Arthur
Por: Arthur em 2 Abril, 2009
às 22:25
Olá Arthur,
É tão complicado falarmos do que não vivemos. Quero lhe confesar algo, pode até parecer politicamente incorreto para um cara que tem “alguma informação”, mas nem hoje em dia eu tenho suporte para me relacionar com uma pesssoa com HIV.
Na minha primeira transa que eu tive com o Douglas, a camisinha se rompeu, a maioria das mulheres ficam gravidas nessas condições. Sei lá, nesse ponto eu sou medroso, covarde ou desestruturado.
Por: Marcos Freitas em 16 Abril, 2009
às 7:39
Marcos eu entendo o que você fala.
Não é simples viver uma situação assim. Há uma série de preconceitos e o pior: há a realidade. Eu sou do tempo que SIDA matava rápido e com uma decadência física chocante! Hoje, os novos tratamentos, os coquetéis são excelentes. Mas, mesmo assim, é muito delicado.
No caso específico que falo acima, eu o aceitaria sem restrições pelo amor que já tinha por ele. Hoje, iniciar uma relação com alguém soropositivo me levaria a pensar em pros e contras. Naquela época, com todo aquele sentimento, eu aceitaria sem problemas. Hoje, com perspectivas de futuro e com sentimento, creio que tampouco seria um problema para mim.
Grande abraço,
Arthur
Por: Arthur em 26 Abril, 2009
às 15:06