
Abismo
“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5:30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo”.
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Tal como García Márquez colocou no primeiro parágrafo seu famoso “Crônica de uma morte anunciada”, creio que vemos, em nosso dia-a-dia, uma série de situações que se anunciam em nosso futuro. Fiquei com esta frase na cabeça por muito tempo e ela voltou nesta última semana quando soube de duas separações de colegas da faculdade.
Final de semestre tudo fica mais complicado, mais cheio de atividades. Fora isso, ganhei uma folga inesperada e estive afastado quase duas semanas. No retorno, segunda-feira passada descobri uma colega deprimida. Conversando, ela contou-me de sua separação do marido.
Eles estavam casados a pouco mais de um ano. Na época do casamento, muitos ficaram surpresos: eles namoravam havia anos, mas o cara nunca parecia comprometido o suficiente para o casamento. Ela, em plena crise dos “pós-trinta-e-cinco”, estava desesperada para casar-se.
Algo que aprendi em minha vida com relação a casais foi: “nunca dê uma opinião se não perguntado”. Também aprendi que “nunca devo dar minha opinião sincera a alguém que quer ouvir outra coisa”. Por estas aprendizagens, nem sempre tão facilmente digeríveis, fiquei calado e imaginei o quanto ela estaria disposta a apostar em uma relação com um cara que, claramente, não tinha uma definição clara de futuro em comum… Mas, ela era do tipo decidido e decidiu que ele a quereria… Um ano depois, separação.
Também aprendi que em momentos de depressão a pior coisa que se pode fazer com alguém é o tradicional “eu te disse, eu já sabia”. A melhor, eu não tenho a menor idéia, mas opto por ser um bom ouvido e um bom ombro.
O fato é que esta situação, aliada a outra que soube depois, trouxeram-me de volta a frase de García Márquez… São tantas as vezes em nossas vidas que sabemos que estamos entrando em uma “roubada” e mesmo assim… …entramos! Que desejo, ou que carência exagerada, nos leva a esquecer da realidade e cair de cabeça em situações loucas.
Loucuras inconsequentes me lembram a adolescência. O desejo pulsante e o desconhecido me levaram, não poucas vezes, a insanidades completamente inconsequentes. Mas o tempo passa e, dizem os neuropsicólogos, o córtex pré-frontal assume cada vez mais o controle. Por outro lado, noto que quando estamos envolvidos nestas situações, não percebemos o abismo. De fora, ele é claramente visível! Por que não aceitamos a visão dos outros? Por que não nos permitimos outros pontos de vista?
É, acho que precisamos de mais desenvolvimento do córtex pré-frontal…



