
E lá estava o ursinho de novo: fofo, com sua barba bem feita, uma camiseta branca e jeans.
Depois de minhas férias com os primos, voltei ao Brasil com um deles a tiracolo. Xavi veio comigo uns dias antes de Jordi. Ambos queriam fugir da Semana Santa espanhola, sempre lotada de turistas e quando as coisas sobem até a estratosfera. Há serviços que, inclusive, cobram um “suplemento de Semana Santa” para transportes, refeições, hospedagens, etc.
Depois de um vôo longo, escutando um Xavi deprimido, falando que estava com saudade (nostalgia), corri para casa, com o saudoso primo a tiracolo, pendurado no celular, falando romanticamente com o marido. Um dia depois, instalados e levemente descansados, levei Xavi para rodar pela cidade, fazer compras e apresentá-lo a vizinhança.
Em um supermercado, fazendo as compras da semana e explicando-lhe que nem sempre se encontra salmão defumado em um supermercado mediano, muito menos aspargos frescos, angulas e azeites de primeira prensa aromatizados, resolvemos começar a comprar os típicos chocolates de páscoa. Paquerando com uns ovos enormes, sou abordado por um senhor muito interessante. Alto, pelos quarenta e poucos anos, bermuda e camiseta mostrando braços musculosos e tatuados. Ele me pergunta uma opinião sobre os ovos, e me mira fixamente. Xavi, discretamente se afasta. Conversei com o cara uns minutos, percebendo claramente que o objetivo não era saber dos ovos. Sou chato… Quando percebo a sedução e não sinto segurança no cara, me faço de louco. E foi isso que fiz. Deixei os ovos, despedi-me e fui puxar a orelha de Xavi por ter me deixado sozinho. Ele reclamou que não queria atrapalhar meu flerte. Caímos na risada pelo “flirteo”.
Recolhemos nossos produtos, e partimos para a fila do caixa. Surpresa! Nosso amigo quarentão para exatamente atrás de nos, mesmo havendo outros caixas mais vazios… Xavi me olha com cara de passado e o cara tenta puxar conversa. Eis que chega uma senhora loura com um garotinho e enche o carrinho do cara de coisas. Apesar de ele não usar aliança, ela usa e não para de reclamar do preço das coisas e chamá-lo de querido. O quarentão não sabe onde enfiar a cara e Xavi, chocado, me olha perguntando: “Arturo, que é isso? Ele é casado e estava te paquerando”? Pois é, fiquei pensando como isso é comum… “Xavi, ele é um safado”. Difícil foi explicar o que é safado na língua-pátria.
Dia seguinte estávamos em um shopping, tomando um café. Passou um ursinho e me olhou. Morro de vergonha de paquerar e nunca, mas nunca mesmo tomo a iniciativa. Mas retribuí o olhar. Ele seguiu adiante e continuou olhando. Não me fiz de rogado, e não desviei meu olhar. Xavi, fofocando, nem reparava o que acontecia. O ursinho se foi, desceu para o andar de baixo e fiquei com aquela sensação de frustração.. Terminado o café, descemos e entramos nas “Lojas Americanas”. E lá estava o ursinho de novo: fofo, com sua barba bem feita, uma camiseta branca e jeans. Ele me olhava descaradamente e eu retribuía… Xavi, ainda sem perceber, agarrou meu braço e me levou para a seção dos chocolates. O ursinho me olha com uma cara decepcionada, balança a cabeça e sai. Fiquei arrasado!
Parei Xavi e expliquei o que acontecera. Ele riu, pediu desculpas e disse, “vamos”. Rodamos a loja até ele encontrar o ursinho. Xavi foi na direção dele e fiquei verde pensando no poderia acontecer! Xavi, com seu sotaque carregado diz para o ursinho: “Eu sô primo. Ele no es safado”!



