L`Opera

Parsifal

Entre os espetáculos, ainda com entradas disponíveis estava uma ópera no Liceu: Parsifal

Desde que decidi aceitar o convite de meu primo para passar algum tempo com ele em Barcelona que comecei a bisbilhotar todos os possíveis espetáculos em cartaz nos meses de fevereiro e março.

Entre os espetáculos, ainda com entradas disponíveis estava uma ópera no Liceu: Parsifal. Tentei seduzir de todas as formas os primos para irmos. Os dois passaram. Na verdade me convidaram para assistir Barcelona X Arsenal, pela Champions League que ocorreria no mesmo dia que escolhi, 08 de março. Passei e fiz um escândalo ressaltando a importância de um evento cultural sobre uma mera partida de futebol… Meu primo é fanático pelo Barcelona. Sócio, não perde um só jogo. Xavi, o marido, suporta e sempre diz: “é na alegria e na dor, Arturo, tenho que ir…” fazendo cara de mártir.

Assim, abandonado pela família, parti para o Liceu. Cheguei cedo, peguei a entrada na rua lateral sob o olhar penalizado de uma antipática velhinha que disse “¿una sola?”. Resignado, parti para meus três lances de escada até o balcão. Eu havia escolhido uma cadeira de canto. Mais fácil de sair e mais fácil de entrar. Ao me lado, quatro cadeiras vazias… Pensei que maravilha seria ter quase uma fila inteira para mim, mas lembrei que isso seria praticamente impossível.

Ha poucos minutos do início do espetáculo entram meus vizinhos: três moças e um rapaz, todos na faixa dos trinta e tantos anos e todos loiros. As moças sentaram e começaram uma animada conversa em alemão. Ele apenas tirou o sobretudo e sentou na quarta cadeira, em silêncio. O espetáculo começou e todos calamos, atentos ao palco.

Ao final do primeiro ato (eram três), com poucos aplausos contrariando a tradição de não aplaudir, praticamente todos desceram para o tradicional café, ou cava. Demorei um minuto a mais e desci pachorrentamente pelas escadas. No retorno, para minha surpresa, minhas três vizinhas não retornaram, e o rapaz loiro estava sozinho. Ao longo do segundo ato, vendo que as vizinhas não voltavam, pulei duas cadeiras para ficar mais ao centro. No intervalo do segundo ato, mais uma vez, deixei que todos passassem para depois sair. O rapaz fez o mesmo. Olhou-me curioso, levantou e não vestiu o sobretudo, aproximou-se e perguntou se eu não ia sair. Respondi que sim e ele esperou que eu levantasse e passasse, para só então seguir. Achei um gesto delicado e atencioso (exatamente o que me atrai em um homem). Sai para os corredores e fui ao toalete. Depois subi para o bar do quinto piso, imaginado que estivesse mais livre que o Foyer. Não encontrei mais meu vizinho, literalmente, lindo e loiro…

Voltei para meu lugar e optei por esperar se minhas vizinhas voltariam, antes de ocupar o lugar de uma delas. Ele chegou pouco depois e sorriu para mim. Tomou seu assento e ficou olhando-me com curiosidade. Tocando o terceiro sinal, teve início o terceiro ato. Pulei para a cadeira das vizinhas, aproveitando a melhor visão. Percebi que ele riu de meu gesto discreto, ao apagar das luzes. Ao contrário do que eu esperava, não me senti constrangido, senti-me, sim, como alguém que acaba de fazer uma travessura exitosa e divertida e o olhei com cara de vitória. Ele riu mais uma vez.

Ao final do terceiro ato, alguns inebriados com a música e outros, como eu, desvairados de fome, iniciaram-se os ciclos de aplausos. Neste momento, com praticamente todos de pé, ele aproxima-se de mim e fala suavemente: “Me perguntava se tu não gostarias de ir jantar?”. Olhou-me nos olhos, sorriu e complementou “Comigo, claro”… Achei a abordagem tão inesperada e ao mesmo tempo tão inusual para um típico europeu (alemão, eu supunha), que fiquei sem palavras, olhando-o apenas. Ele sorriu mais uma vez e disse: “Ok, tu podes estudar o assunto” e continuou olhando-me nos olhos. Fiquei incrivelmente sem graça. Creio que ele notou e falou: “Vale… um café?”

Sorri e aceitei, mas sugeri que junto com o café precisava alimentar-me de algo, de preferência, não de Mcdonalds. Fomos saindo para os corredores enquanto os aplausos continuavam. Descemos as escadas praticamente sem falarmos. Me surpreendeu que ele me conduzia, orientando-me entre as pessoas, com a mão no meu ombro. Isso me encantava e comecei a pensar porque demorei tanto a aceitar o convite daquele homem.

Ele me sugeriu restaurantes na área do porto. Como área turística, sempre havia algo aberto. Nem sempre boa qualidade, mas era alimento. Escolhemos um pequeno restaurante de comida peruana. Pedimos e chegou aquele momento de “que vou falar”? Curiosamente eu não me sentia desconfortável. Era como estar com um velho conhecido, com o qual o silêncio não era constrangedor.

Couple

E foi aí que tudo começou...

E foi aí que tudo começou. Falamos de tudo. Do tempo frio, estranho naquela época. Da chuva repentina do dia anterior. Da quantidade incrível de sul americanos que havia invadido o mercado de fast food em Barcelona. Do casamento gay. De nossos antigos namorados, maridos, paqueras. De nossas expectativas por um novo romance. De como nos sentimos sozinhos, muitas vezes, e como isso nos deixava fragilizados. Da saudade de outros tempos, onde as pessoas se olhavam mais nos olhos, o carão não era o padrão e um “te ligo” era certo e verdadeiro. De sonhar dias e noites com uma vida a dois. Do excesso de responsabilidades que nos impúnhamos e como isto nos era pernicioso. De como o restaurante fechava e os garçons rondavam nossa mesa…

Saímos para o frio da noite, reclamando do vento que vinha do porto e dos muitos turistas que atravessavam a Rambla del Mar e subiam em direção à Plaça de Catalunya… Sentamos em um banco perto do Passeig Maritm e continuamos a conversa. Uma quarta-feira… Metro fechado e poucos taxis perdidos na noite. Os Nit buses passavam a cada meia hora e nos continuávamos filosofando: que fazíamos? Que tínhamos estudado? Como era nosso trabalho?

Ele me olhou e sugeriu que seguíssemos para a Plaça Catalunya em busca de taxis desocupados. Podíamos ir para sua casa? Aceitei, mais pelo momento de puro envolvimento que pela ideia de sexo, desejo, tesão.

Subimos a Rambla sem parar de falar. Quem éramos? O que fazíamos aqui? Qual era o sentido de nossas vidas? Imigrantes árabes cruzavam a Rambla entrando no Raval. Perguntávamos-nos: como se sentiriam? Como se adaptavam? Religião?

Chegando à Catalunya, um taxi estava parado no ponto em frente ao Corte Inglés Marcas. Subimos e ele indicou um endereço em Poble Sec. Pensei que poderíamos ter ido até ali andando, calmamente e conversando. Surpreendi-me por cruzar a Avenida Paral·lel e subir por ruas que nunca tinha me dado conta até quase a encosta de Montjuïc. Ali, paramos em um prédio antigo de apenas três andares que, seguramente, havia sido apenas uma casa no passado.

Por trás de uma bela porta de madeira e vidro, abria-se um pátio onde um pequeno jardim era parcamente iluminado por luzes indiretas, dando uma gostosa sensação de aconchego. Subimos uma escada ampla para o terceiro andar onde havia duas portas, lado a lado. Ele abriu a da direita e me fez entrar em um pequeno recibidor com um amplo espelho e cabides. No chão, sapatos. Tirei os meus agradecendo a Deus por não estar com meias furadas…

Passamos a um longo corredor com portas à direita e muitos quadros na parede à esquerda. Ao fim estava uma sala pequena, com uma ampla vidraça que dava para a rua. Aconchegante, a sala tinha um estilo antigo com moveis de madeira escura, embora leves, piso de madeira, muitas almofadas e estantes lotadas de livros, cds e dvds. Uma pequena mesa de canto tinha dois porta retratos – foto de um casal e, no outro uma família onde o identifiquei. Não notei mais nenhuma foto na sala.

Toda a iluminação da sala era oferecida por um lindo lustre estilo indiano, com cinco cúpulas nas cores azul, verde, amarelo, vermelho e lilás. O jogo das cores dava uma impressão alegre e era uma festa para os olhos. O lustre estava mais para um canto da sala, sobre uma pequena mesa de jantar para quatro pessoas. Do outro lado, um sofá de madeira com almofadões de algodão cru, era coberto por duas mantas, uma vinho, outra marrom. Foi ali que ele me convidou para sentar e foi ali que continuamos nossa conversa, agora regada a um bom Ribera del Duero. Um vinho “de moda” como me disse ele, explicando que o ganhara de um de seus clientes.

Vicente, navarro, era engenheiro e trabalhava com robótica. Explicou-me que vivia tão cercado de modernidade que adorava chegar em casa e jogar-se nos velhos móveis trazidos do Pueblo. Recebia muitos “regalos” de clientes e empresas. Os vinhos eram alguns deles. Contou-me, sorrindo, que há anos não precisava comprar bebidas!

No decorrer de nossa conversa, arriscamos um beijo: sem chispa… Nos olhamos, rimos e resolvemos tentar um segundo. Um pouco mais demorado… Tivemos a certeza: mais que aquilo seria incesto! E foi assim que percebemos que éramos tão parecidos que não conseguíamos! Havia um carinho imenso, um gostar delicioso e mais nada: nada de excitação, nada de desejo. Apenas uma grande vontade de conversar por anos a fio e ficar pertinho e querer bem e ajudar e desejar tudo de bom.

“Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer”…

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