Homem

Bo-Berta

O frentista, moreno, alto, forte, peludo, cabelos longos e olhos verdes, me olhava sorrindo!

Chego ao posto de combustível, abro meu vidro ultra fumê e espero que o frentista se digne a me atender. O cara, de bonezinho e macacão típico dos postos BR vira-se e me sorri. Gelei… Devo estar ultra carente… O frentista, moreno, alto, forte, peludo, cabelos longos e olhos verdes, me olhava sorrindo!

E eu?

Paralisado! Sem tirar os olhos daquele homem e sem fazer nenhum movimento.

Um dos primos, no banco do carona me dá uma cotovelada. Caio na real e peço para completar o tanque.

O cara deve ter notado mas, para variar, me fiz de louco, sorri educado, sequei todo o corpo dele pelos espelhos, paguei e fugi do posto sob as gargalhadas do casal de primos. Pergunta típica: por que estou sozinho?

Resposta simples: não encontro um Homem! Claro que tem vários caras bonitos na noite (na tarde e no dia, também), mas não consigo encontrar um Homem! Tive uma relação com um cara que se dizia meu namorado. A gente se via uma ou duas vezes por mês. Sempre para sexo. Quando insisti muito, consegui lavá-lo para ir jantar e outra vez para o teatro. Ele dizia que “era o namorado”, mas isso era namoro? Ok, tem o fato dele ser um “baby”, 10 anos mais jovem que eu. Acho que isso não me permitiu levá-lo muito a sério, especialmente porque nossa relação era puramente sexual (muito boa, aliás). Será que era só isso?

Na Espanha, em pleno teatro, conheci alguém muito interessante. Lindo, loiro, solteiro… Nada de química! Dá para se apaixonar por alguém e na hora H, nada? Ficamos amigos, nos correspondemos, nos compreendemos, nos achamos “lindos”, ele é um Homem… …mas não tem química!

E fico assim. Esperei que meu baby tomasse corpo e mente de Homem: nada… …partiu. E agora fico desejando que aconteça algo com alguns dos poucos caras com corpo, jeito e valores de um Homem que vejo de quando em quando pela vida. Daí, chego em um posto de combustível e babo com o frentista! É, estou carente…

E sim: claro que só vou abastecer agora naquele posto!


Coração

Moreno

O que me fascinou dele foi o fato de ser alguém completamente diferente de meu padrão.

Já faz algum tempo que conheci um homem interessante. Na verdade essa pessoa não era “exatamente” o que espero de um Homem. Mas me permiti ir além do simples “Olá” e acedi conhecê-lo melhor. O que me fascinou dele foi o fato de ser alguém completamente diferente de meu padrão.

Ao contrário do meu agir habitual, abri minhas portas e me permiti sair do conforto de meu dia a dia. Saímos, vivemos algumas situações muito agradáveis, embora sem nos misturarmos. Em parte por ele, que sempre se mostrou muito reservado. Exceto pelo Orkut, onde “assumiu” um namoro comigo (sem me comunicar – rsrsrs), mudando seu status.

Saímos algumas vezes, sempre na coisa de “ficar”. A relação foi esfriando aos poucos, acho que inclusive por meu medo dessa coisa puramente sensual. Acaba que era algo meio físico, muito bom, mas apenas isso.

E meu erro foi, como sempre, ser demasiadamente sincero. Disse que gostava dele, mas não sentia paixão. Que ele me agradava profundamente e que nossos momentos eram deliciosos. Mas não conseguia viver apenas uma relação que não chegava na cabeça, nem no coração…

Aos poucos fomos afastando-nos e as saídas foram se tornando cada vez mais espaçadas. Muitas desculpas, dele e minhas. Tudo culminou com minha ida para Barcelona. Comentei que iria e que passaria um mês ou dois. Creio que ele entendeu como um “adeus” e os contatos desapareceram.

Fiquei pensando: “Eu sou um cara muuuuiiiito chato”!!!


L`Opera

Parsifal

Entre os espetáculos, ainda com entradas disponíveis estava uma ópera no Liceu: Parsifal

Desde que decidi aceitar o convite de meu primo para passar algum tempo com ele em Barcelona que comecei a bisbilhotar todos os possíveis espetáculos em cartaz nos meses de fevereiro e março.

Entre os espetáculos, ainda com entradas disponíveis estava uma ópera no Liceu: Parsifal. Tentei seduzir de todas as formas os primos para irmos. Os dois passaram. Na verdade me convidaram para assistir Barcelona X Arsenal, pela Champions League que ocorreria no mesmo dia que escolhi, 08 de março. Passei e fiz um escândalo ressaltando a importância de um evento cultural sobre uma mera partida de futebol… Meu primo é fanático pelo Barcelona. Sócio, não perde um só jogo. Xavi, o marido, suporta e sempre diz: “é na alegria e na dor, Arturo, tenho que ir…” fazendo cara de mártir.

Assim, abandonado pela família, parti para o Liceu. Cheguei cedo, peguei a entrada na rua lateral sob o olhar penalizado de uma antipática velhinha que disse “¿una sola?”. Resignado, parti para meus três lances de escada até o balcão. Eu havia escolhido uma cadeira de canto. Mais fácil de sair e mais fácil de entrar. Ao me lado, quatro cadeiras vazias… Pensei que maravilha seria ter quase uma fila inteira para mim, mas lembrei que isso seria praticamente impossível.

Ha poucos minutos do início do espetáculo entram meus vizinhos: três moças e um rapaz, todos na faixa dos trinta e tantos anos e todos loiros. As moças sentaram e começaram uma animada conversa em alemão. Ele apenas tirou o sobretudo e sentou na quarta cadeira, em silêncio. O espetáculo começou e todos calamos, atentos ao palco.

Ao final do primeiro ato (eram três), com poucos aplausos contrariando a tradição de não aplaudir, praticamente todos desceram para o tradicional café, ou cava. Demorei um minuto a mais e desci pachorrentamente pelas escadas. No retorno, para minha surpresa, minhas três vizinhas não retornaram, e o rapaz loiro estava sozinho. Ao longo do segundo ato, vendo que as vizinhas não voltavam, pulei duas cadeiras para ficar mais ao centro. No intervalo do segundo ato, mais uma vez, deixei que todos passassem para depois sair. O rapaz fez o mesmo. Olhou-me curioso, levantou e não vestiu o sobretudo, aproximou-se e perguntou se eu não ia sair. Respondi que sim e ele esperou que eu levantasse e passasse, para só então seguir. Achei um gesto delicado e atencioso (exatamente o que me atrai em um homem). Sai para os corredores e fui ao toalete. Depois subi para o bar do quinto piso, imaginado que estivesse mais livre que o Foyer. Não encontrei mais meu vizinho, literalmente, lindo e loiro…

Voltei para meu lugar e optei por esperar se minhas vizinhas voltariam, antes de ocupar o lugar de uma delas. Ele chegou pouco depois e sorriu para mim. Tomou seu assento e ficou olhando-me com curiosidade. Tocando o terceiro sinal, teve início o terceiro ato. Pulei para a cadeira das vizinhas, aproveitando a melhor visão. Percebi que ele riu de meu gesto discreto, ao apagar das luzes. Ao contrário do que eu esperava, não me senti constrangido, senti-me, sim, como alguém que acaba de fazer uma travessura exitosa e divertida e o olhei com cara de vitória. Ele riu mais uma vez.

Ao final do terceiro ato, alguns inebriados com a música e outros, como eu, desvairados de fome, iniciaram-se os ciclos de aplausos. Neste momento, com praticamente todos de pé, ele aproxima-se de mim e fala suavemente: “Me perguntava se tu não gostarias de ir jantar?”. Olhou-me nos olhos, sorriu e complementou “Comigo, claro”… Achei a abordagem tão inesperada e ao mesmo tempo tão inusual para um típico europeu (alemão, eu supunha), que fiquei sem palavras, olhando-o apenas. Ele sorriu mais uma vez e disse: “Ok, tu podes estudar o assunto” e continuou olhando-me nos olhos. Fiquei incrivelmente sem graça. Creio que ele notou e falou: “Vale… um café?”

Sorri e aceitei, mas sugeri que junto com o café precisava alimentar-me de algo, de preferência, não de Mcdonalds. Fomos saindo para os corredores enquanto os aplausos continuavam. Descemos as escadas praticamente sem falarmos. Me surpreendeu que ele me conduzia, orientando-me entre as pessoas, com a mão no meu ombro. Isso me encantava e comecei a pensar porque demorei tanto a aceitar o convite daquele homem.

Ele me sugeriu restaurantes na área do porto. Como área turística, sempre havia algo aberto. Nem sempre boa qualidade, mas era alimento. Escolhemos um pequeno restaurante de comida peruana. Pedimos e chegou aquele momento de “que vou falar”? Curiosamente eu não me sentia desconfortável. Era como estar com um velho conhecido, com o qual o silêncio não era constrangedor.

Couple

E foi aí que tudo começou...

E foi aí que tudo começou. Falamos de tudo. Do tempo frio, estranho naquela época. Da chuva repentina do dia anterior. Da quantidade incrível de sul americanos que havia invadido o mercado de fast food em Barcelona. Do casamento gay. De nossos antigos namorados, maridos, paqueras. De nossas expectativas por um novo romance. De como nos sentimos sozinhos, muitas vezes, e como isso nos deixava fragilizados. Da saudade de outros tempos, onde as pessoas se olhavam mais nos olhos, o carão não era o padrão e um “te ligo” era certo e verdadeiro. De sonhar dias e noites com uma vida a dois. Do excesso de responsabilidades que nos impúnhamos e como isto nos era pernicioso. De como o restaurante fechava e os garçons rondavam nossa mesa…

Saímos para o frio da noite, reclamando do vento que vinha do porto e dos muitos turistas que atravessavam a Rambla del Mar e subiam em direção à Plaça de Catalunya… Sentamos em um banco perto do Passeig Maritm e continuamos a conversa. Uma quarta-feira… Metro fechado e poucos taxis perdidos na noite. Os Nit buses passavam a cada meia hora e nos continuávamos filosofando: que fazíamos? Que tínhamos estudado? Como era nosso trabalho?

Ele me olhou e sugeriu que seguíssemos para a Plaça Catalunya em busca de taxis desocupados. Podíamos ir para sua casa? Aceitei, mais pelo momento de puro envolvimento que pela ideia de sexo, desejo, tesão.

Subimos a Rambla sem parar de falar. Quem éramos? O que fazíamos aqui? Qual era o sentido de nossas vidas? Imigrantes árabes cruzavam a Rambla entrando no Raval. Perguntávamos-nos: como se sentiriam? Como se adaptavam? Religião?

Chegando à Catalunya, um taxi estava parado no ponto em frente ao Corte Inglés Marcas. Subimos e ele indicou um endereço em Poble Sec. Pensei que poderíamos ter ido até ali andando, calmamente e conversando. Surpreendi-me por cruzar a Avenida Paral·lel e subir por ruas que nunca tinha me dado conta até quase a encosta de Montjuïc. Ali, paramos em um prédio antigo de apenas três andares que, seguramente, havia sido apenas uma casa no passado.

Por trás de uma bela porta de madeira e vidro, abria-se um pátio onde um pequeno jardim era parcamente iluminado por luzes indiretas, dando uma gostosa sensação de aconchego. Subimos uma escada ampla para o terceiro andar onde havia duas portas, lado a lado. Ele abriu a da direita e me fez entrar em um pequeno recibidor com um amplo espelho e cabides. No chão, sapatos. Tirei os meus agradecendo a Deus por não estar com meias furadas…

Passamos a um longo corredor com portas à direita e muitos quadros na parede à esquerda. Ao fim estava uma sala pequena, com uma ampla vidraça que dava para a rua. Aconchegante, a sala tinha um estilo antigo com moveis de madeira escura, embora leves, piso de madeira, muitas almofadas e estantes lotadas de livros, cds e dvds. Uma pequena mesa de canto tinha dois porta retratos – foto de um casal e, no outro uma família onde o identifiquei. Não notei mais nenhuma foto na sala.

Toda a iluminação da sala era oferecida por um lindo lustre estilo indiano, com cinco cúpulas nas cores azul, verde, amarelo, vermelho e lilás. O jogo das cores dava uma impressão alegre e era uma festa para os olhos. O lustre estava mais para um canto da sala, sobre uma pequena mesa de jantar para quatro pessoas. Do outro lado, um sofá de madeira com almofadões de algodão cru, era coberto por duas mantas, uma vinho, outra marrom. Foi ali que ele me convidou para sentar e foi ali que continuamos nossa conversa, agora regada a um bom Ribera del Duero. Um vinho “de moda” como me disse ele, explicando que o ganhara de um de seus clientes.

Vicente, navarro, era engenheiro e trabalhava com robótica. Explicou-me que vivia tão cercado de modernidade que adorava chegar em casa e jogar-se nos velhos móveis trazidos do Pueblo. Recebia muitos “regalos” de clientes e empresas. Os vinhos eram alguns deles. Contou-me, sorrindo, que há anos não precisava comprar bebidas!

No decorrer de nossa conversa, arriscamos um beijo: sem chispa… Nos olhamos, rimos e resolvemos tentar um segundo. Um pouco mais demorado… Tivemos a certeza: mais que aquilo seria incesto! E foi assim que percebemos que éramos tão parecidos que não conseguíamos! Havia um carinho imenso, um gostar delicioso e mais nada: nada de excitação, nada de desejo. Apenas uma grande vontade de conversar por anos a fio e ficar pertinho e querer bem e ajudar e desejar tudo de bom.

“Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer”…


Amor e sexo virtual

Adorei!!!
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Computer Sex
(Aaron & The Gays)

Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I met him online and now i’m falling in love
It’s getting se-ri-ous

I was hanging on msn, yahoo, irc
I got an instinct m-e-s-s-a-g-e
Oh yeah
This boy though i was c-u-t-e
From my profile he’d seen on his screen
I said ok, let’s make it date to chat privatly

Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I met him online and now i’m falling in love
Its getting se-ri-ous
Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I never thought i could fall in this kind of love
But now it’s getting se-ri-ous

Me and this guy chat into the night it seems so right
I follow on his links and showed him on my favorite website
I met all of his online friends they’re all so cool, its true
I guess i started to fall for him right there in a chat room
And it’s true, beyond that world
Is for empty girls, yeah empty girls

Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I met him online and now i’m falling in love
Its getting se-ri-ous
Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I never thought i could fall in this kind of love
But now it’s getting se-ri-ous

Ooh no! i never thought it come to this
Ooh no! my online experiment has come and sweat me far away
In a computerize days
It was getting late, it was time to go home
He asked me if he could stay the night in my online room
I should have told him that i was not that kind of girl, oh no!
But he smiley, i can’t, was so irresistible
So it’s true, i was an empty girl in online world, in the online world

Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I met him online and now i’m falling in love
Its getting se-ri-ous
Computer love, love, love, love, love, love
Computer sex, sex, sex, sex, sex, sex
Computer
I never thought i could fall in this kind of love
But now it’s getting se-ri-ous


Safado

Osito

E lá estava o ursinho de novo: fofo, com sua barba bem feita, uma camiseta branca e jeans.

Depois de minhas férias com os primos, voltei ao Brasil com um deles a tiracolo. Xavi veio comigo uns dias antes de Jordi. Ambos queriam fugir da Semana Santa espanhola, sempre lotada de turistas e quando as coisas sobem até a estratosfera. Há serviços que, inclusive, cobram um “suplemento de Semana Santa” para transportes, refeições, hospedagens, etc.

Depois de um vôo longo, escutando um Xavi deprimido, falando que estava com saudade (nostalgia), corri para casa, com o saudoso primo a tiracolo, pendurado no celular, falando romanticamente com o marido. Um dia depois, instalados e levemente descansados, levei Xavi para rodar pela cidade, fazer compras e apresentá-lo a vizinhança.

Em um supermercado, fazendo as compras da semana e explicando-lhe que nem sempre se encontra salmão defumado em um supermercado mediano, muito menos aspargos frescos, angulas e azeites de primeira prensa aromatizados, resolvemos começar a comprar os típicos chocolates de páscoa. Paquerando com uns ovos enormes, sou abordado por um senhor muito interessante. Alto, pelos quarenta e poucos anos, bermuda e camiseta mostrando braços musculosos e tatuados. Ele me pergunta uma opinião sobre os ovos, e me mira fixamente. Xavi, discretamente se afasta. Conversei com o cara uns minutos, percebendo claramente que o objetivo não era saber dos ovos. Sou chato… Quando percebo a sedução e não sinto segurança no cara, me faço de louco. E foi isso que fiz. Deixei os ovos, despedi-me e fui puxar a orelha de Xavi por ter me deixado sozinho. Ele reclamou que não queria atrapalhar meu flerte. Caímos na risada pelo “flirteo”.

Recolhemos nossos produtos, e partimos para a fila do caixa. Surpresa! Nosso amigo quarentão para exatamente atrás de nos, mesmo havendo outros caixas mais vazios… Xavi me olha com cara de passado e o cara tenta puxar conversa. Eis que chega uma senhora loura com um garotinho e enche o carrinho do cara de coisas. Apesar de ele não usar aliança, ela usa e não para de reclamar do preço das coisas e chamá-lo de querido. O quarentão não sabe onde enfiar a cara e Xavi, chocado, me olha perguntando: “Arturo, que é isso? Ele é casado e estava te paquerando”? Pois é, fiquei pensando como isso é comum… “Xavi, ele é um safado”. Difícil foi explicar o que é safado na língua-pátria.

Dia seguinte estávamos em um shopping, tomando um café. Passou um ursinho e me olhou. Morro de vergonha de paquerar e nunca, mas nunca mesmo tomo a iniciativa. Mas retribuí o olhar. Ele seguiu adiante e continuou olhando. Não me fiz de rogado, e não desviei meu olhar. Xavi, fofocando, nem reparava o que acontecia. O ursinho se foi, desceu para o andar de baixo e fiquei com aquela sensação de frustração.. Terminado o café, descemos e entramos nas “Lojas Americanas”. E lá estava o ursinho de novo: fofo, com sua barba bem feita, uma camiseta branca e jeans. Ele me olhava descaradamente e eu retribuía… Xavi, ainda sem perceber, agarrou meu braço e me levou para a seção dos chocolates. O ursinho me olha com uma cara decepcionada, balança a cabeça e sai. Fiquei arrasado!

Parei Xavi e expliquei o que acontecera. Ele riu, pediu desculpas e disse, “vamos”. Rodamos a loja até ele encontrar o ursinho. Xavi foi na direção dele e fiquei verde pensando no poderia acontecer! Xavi, com seu sotaque carregado diz para o ursinho: “Eu sô primo. Ele no es safado”!


Some day he’ll come along – the man I love

Conheci a música de Ivri Lider na época de “Delicada Relação” (Yossi & Jagger). Fiquei encantado com a batida de “Your Soul” e fui buscar quem era o cantor cuja voz suave, me transmitia tanta emoção.

Aos poucos fui conhecendo outras composições de Ivri Lider, li algumas de suas entrevistas e tornei-me um fã. Figura sempre presente na trilha sonora, quando não na própria história, dos filmes de Eytan Fox (que eu também admiro), as músicas deste israelense são, suaves, baladas melódicas e tocantes.

Uma de suas últimas músicas, Mike, foi composta para o álbum Peace. O vídeo está abaixo…
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Tempo de ser

Berço

“A mão que balança o berço é a mesma mão que controla o mundo”

Eu sempre tive a curiosidade de saber o quanto eu usava máscaras. Na verdade, nos sempre usamos algum tipo de máscara. Sejam aquelas tipicamente sociais, como o rosto alegre em um encontro onde não estamos nem um pouco interessados no tema, ou a aparente frieza perante uma situação que muito nos abala.

As pessoas que me conhecem sempre comentam que sou incrivelmente transparente. Na verdade sou… …na maioria das vezes. Se não estou atento, transpareço com fidelidade no rosto e no corpo todas as sensações e emoções que sinto. O mundo me toca profundamente e eu retribuo com todo o meu corpo. Entretanto, em situações onde percebo que posso ser tocado, recolho-me. Aparento, objetivamente, uma calma distante. Meu coração pode acelerar, minha pressão enlouquecer, minha visão turvar e a tradicional boca seca me assalta… Entretanto, aparento a completa distância.

Há pessoas que me fazem sentir isso. Aquelas pessoas que, por mais que queiramos, sempre nos deixam com “um pé atrás”. Aqueles em cuja presença não nos sentimos confortáveis, apesar de serem pessoas “encantadoras”, agradáveis. Há lugares onde, igualmente, sinto essa tremenda necessidade de proteger-me.

Por outro lado, há pessoas e lugares que me dão uma completa sensação de unidade. Em estes locais posso ser eu mesmo, sem máscaras, marcas, proteções. Ocorre o mesmo com algumas pessoas, raras, mas existem.

Estava pensando sobre isso por causa do tempo que estou passando com meu primo. Nossa relação sempre foi boa, embora nunca tenhamos sido os melhores amigos. Morando em dois continentes diferentes, sempre nos apreciamos. Menos pelo fato de sermos ambos gays, relativamente fora do armário e mais pelo fato de termos muito em comum: valores, uma profunda admiração por nossas raízes, a curiosidade profunda por conhecer nossos próprios desejos, e um “duvidar de tudo” constante. Isso sempre nos levava a intermináveis conversas e curiosas descobertas. Poucas vezes fomos confidentes, até porque a distância esmaecia o poder dos fatos, mas sempre notamos que podíamos contar um com o outro.

Nos cinco anos que passei estudando em Barcelona nossa relação se consolidou. Percebi que apesar de casado e com grande parte de sua família na cidade, ele sentia-se incrivelmente só. Quando se deu o rompimento de minha relação, ele e seu companheiro foram meu grande apoio, inclusive “alimentício” (rsrsrs).

Algo que diferimos no dia a dia é o controle. Minha vida me levou a ter uma tremenda necessidade de controlar meu mundo e tudo a meu redor. Em qualquer situação, as pessoas confiam que eu terei sugestões e soluções para todos os problemas. Claro que isso quase nunca é verdade. E claro que esse fato me leva a uma terrível pressão por corresponder às expectativas de todos, cuidando de cada detalhe e de cada situação.

Meu primo, ao contrário, vive a sua vida… Isso entendido como: seus dias e sua realidade passam, momento a momento, e ele não tem grandes preocupações com tudo. Deixa que as coisas aconteçam e segue seu ritmo normalmente. Claro que esta postura o leva a alguns embates com o companheiro. Quando percebi, comentei com ele que sua postura também me incomodava. Sua resposta me arrasou: “Na verdade você diz isso porque é exatamente igual a mim, Arthur. Você só precisa aceitar”.

Depois de me “destrozar” com sua apurada percepção de minha pessoa, percebi que meu maior desejo é exatamente esse: viver sem a neurose de necessitar controlar cada minuto e cada detalhe de minha vida e dos demais. Não, não sou a “a mão que balança o berço” em sua versão de “a mão que controla o mundo”. Apenas aceito que as pessoas me elejam para acompanhar, monitorar, sugerir e implementar soluções para suas vidas… Isso não me agrada e sinto-me muitas vezes cansadíssimo!!! Mas aceito, como um bom rapaz de formação cristã que necessita provar-se útil para receber, por merecimento, o “Reino dos Céus”… Compreendi então a série de fugas que sempre tenho: viagens loucas sem datas definidas, para qualquer cidade onde eu possa ficar, ao menos uns poucos dias sozinho e flanar pelas ruas em paz, sem preocupações, sem neuroses, sem a necessidade de estar pendente de alguém. Entendi como estas viagens, estas fugas, eram na verdade minha forma de respirar, de continuar vivo. Eram pausa em minha vida sufocada de tantas responsabilidades auto-impostas.


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